A CORUJA, O MASTODONTE, O FAZEDOR DE BURACOS E OUTROS MISTÉRIOS

Capítulo 8: Ben, The New York Times Building, Manhattan, Estados Unidos


O café está horrível: Maggie chegou cedo hoje.

Ao ver-me entrar, trouxe uma xícara do líquido negro sofrível e amargo de sua especialidade (o café) e duas rosquinhas de baunilha. A rotina de sempre.

Prefiro a acolhida calorosa e divertida de Sophie, mas, desde que o bebê nasceu, contento-me com a carranca de Maggie, a outra secretária. Esforço-me o mais que posso e não consigo arrancar um sorriso da criatura.

Devo concordar com Ted. A mulher é esquisita mesmo - terá nascido assim.

No primeiro dia de trabalho, repetiu-me o que dissera durante as duas entrevistas para o cargo: que não gostava de trabalhar cercada de homens, que todos os homens eram uns calhordas imorais.

É uma das poucas opiniões pessoais que Maggie já emitiu nestes cinco anos em que trabalha conosco.

Não posso reclamar de suas maneiras pouco amistosas, eu a contratei. Tem o currículo mais impressionante que já me passou pelas mãos. Graduou-se com excelência em Harvard, fala vários idiomas, conhece o mundo inteiro. Poderia ganhar milhões numa grande firma de advocacia (eu mesmo poderia indicar várias delas), mas jamais pôs os pés em uma. Porque não gosta de trabalhar no meio de homens, explicou.

Pouco sei de sua vida pessoal, salvo que mora com o namorado francês (Sophie contou que era francês) e tem um gato preto horrendo de estimação. Ou assim me pareceu, na foto que vi, de relance, em sua agenda de trabalho. Outro detalhe sobre Maggie é que tem uma beleza deslumbrante: a mulher mais bonita que já encontrei. É de assustar. Talvez, por isso, tenha hesitado em contratá-la, imaginando que a circunstância me causaria muitos aborrecimentos, tendo em vista a quantidade de homens que circula pelo jornal todos os dias.

Agora, pensando a respeito, creio que seja esse o motivo pelo qual ela não gosta de trabalhar cercada de homens. Não estou bem certo. Mas a verdade é que o único homem para quem Maggie já sorriu é o Sr. Evans, o ascensorista (Maggie pega sempre o mesmo elevador).

Tampouco supus que Maggie recebesse boa acolhida da ala feminina. Não sou ingênuo, há muito compreendi que as mulheres têm uma estranha forma de apreciar os dotes umas das outras. Não tenho nenhuma teoria quanto a isso, devo mencionar, porque o comportamento feminino (embora eu seja muito bem-casado e tenha duas filhas) é algo totalmente misterioso para mim, sendo, como sou, um homem apenas.

Curiosamente, ao trazer-me a costumeira xícara de café, Maggie depositou, na minha frente, o exemplar de uma publicação francesa (a França rodeia Maggie), um tipo de periódico local, adivinhei. Ergui os olhos com uma indagação implícita, acredito, e ela apontou a manchete principal com uma das longas unhas vermelhas.

Dos rudimentos de francês que conheço, concluí que a notícia se referia ao túnel subterrâneo em construção na Europa. Ultimamente, não há dia em que não se fale do empreendimento. Tentamos não dar muito espaço aqui no jornal ao assunto, que, a meu ver, já perdeu o atrativo, mas, absurdo como pareça, volta e meia alguma coisa sucede com as tais escavações, e, novamente, a obra vem à mídia.

Desta vez, segundo a publicação, as escavações foram interrompidas (é a quinta paralisação, se não me engano) por conta de um achado inesperado na galeria. Um dos operários implantava os explosivos para abrir o primeiro trecho da conexão marítima, quando topou com uma formação rochosa peculiar. O exame mais detalhado revelou tratar-se de um depósito de fósseis pré-históricos. E o primeiro esqueleto encontrado pertenceria a um imenso mastodonte, conforme relatos de um arqueólogo presente no local.

A descoberta causou enorme impacto na região e junto aos financiadores do projeto (principalmente junto a parte destes: os cofres suíços são muito sensíveis), inclusive porque, até onde se sabe, os mastodontes jamais caminharam por solo europeu.

A se confirmar a veracidade do fato, isso poderia inviabilizar definitivamente a obra e as pretensões integracionistas europeias (não sei dizer o motivo que me levou a associar as galerias aos eventos que culminaram na eclosão do segundo conflito bélico mundial - tive aquela impressão de estar assistindo a um filme antigo...).

Ambientalistas, destacados políticos, sabidamente amparados por militantes da esquerda radical, entre outros, e mesmo fontes ligadas a importantes setores da elite conservadora (de acordo com o texto da matéria), já estavam protestando contra a continuidade das escavações. Formara-se uma comissão mista (não alcancei entender o significado das siglas em francês, relativas aos grupos que participavam da tal comissão), que seria ouvida em breve pelo Governo Central do País, para discutir as providências e medidas necessárias à preservação do sítio arqueológico, uma vez localizado em solo da França, local escolhido para comportar o trecho derradeiro do túnel principal.

A parte final da notícia continha um resumo do projeto desde o início e levantava novas críticas à obra, vindas de diversos especialistas. Um renomado financista húngaro, radicado em Paris nos anos sessenta, apresentava uma exposição sobre os prós e contras da proposta, questionando sua real utilidade para integrar o solo continental, maior benefício das galerias enterradas, como reiteram seus idealizadores.

Confesso que os fósseis despertaram minha curiosidade, sempre atento que estou a esses achados científicos. E solidarizei-me com os defensores dos esqueletos, e fiz meus os argumentos do húngaro, enquanto lutava para apreender a integralidade do texto escrito no intricado idioma da honrada terra do lado de lá dos Pireneus.

Em meu cérebro formulou-se a pergunta que não quer calar: com que finalidade, exatamente, seria utilizado o túnel subterrâneo e por que, enfim, o trecho final situava-se embaixo do mar?

Creio que Maggie pensou da mesma forma, porque, quando dei por encerrada a leitura, fitava-me com um de seus olhares enigmáticos, tão próprios dela. Sorriu-me (o sorriso mecânico que não se espalhava pelo rosto aristocrático e perfeito) e saiu, fechando a porta atrás de si.

Peguei o telefone branco, a linha exclusiva, e fiz várias ligações. Falei com dois ou três editores conhecidos, um congressista, três jornalistas independentes e meu amigo Ian, em Londres. O suficiente para amadurecer a decisão que tomei tão logo li a matéria do jornal francês. Chamei Ted na Espanha e pedi que interrompesse as férias e embarcasse no primeiro vôo para Paris.

Ao pousar o fone no gancho, meus sangue ardia. Senti o formigamento pelo corpo, o vento frio soprando a nuca, a agitação que sempre precedia um grande furo, em meus tempos de repórter.

Ou meu faro de jornalista estava realmente enferrujado ou eu acabava de dar com uma mina de ouro.


Capítulo 9: Ted, Plaça Reial, Barri Gòtic, Barcelona, Espanha


Quando o celular tocou, senti que as paisagens ensolaradas de Barcelona que vejo da janela do hotel despediam-se de mim. Nem precisava ouvir a voz de Ben para saber que era ele. Temos essa conexão profissional desde que nos conhecemos.

Sempre achei um completo desperdício ele deixar o trabalho de repórter para sentar atrás daquela mesa, mas, pelo menos, agora, o jornal tem alguém inteligente tomando as decisões importantes. Não me espanta que o jornal tivesse andado mal das pernas uma temporada.

Depois que Ben assumiu, as pessoas certas passaram a sentar nos lugares certos. E ninguém sabe o nome delas, exceto o próprio Ben. É como deve ser.

Admito que a admissão de Maggie surpreendeu-me. A mulher assusta até o Demônio, se há realmente um. Não entendo a fixação que os marmanjos do jornal têm por ela. Todas as vezes que ela se aproxima de mim, sinto calafrios.

E ainda falam que a mulher é linda.

Vai entender a cabeça das pessoas.

Mas até que a viagem a Paris me entusiasmou. Já estava com saudade dos Cafés, do Louvre, de Louise.

Louise foi meu grande amor, mas ela não quis deixar Paris e eu não saio de Manhattan. Preciso daquele cheiro, da sujeira dos becos, dos tipos esquisitos. São saberia viver em outro lugar, por mais que eu ame Louise.

Depois que nos separamos, ela casou com um suíço, um tal de Hans ou Peter, sei lá. Sujeito estranho. Trabalha para uma instituição financeira com sede em Berna, mas passa a maior parte do tempo em Genebra, fazendo sei lá o quê. Acho que nem Louise sabe. E ele não parece se importar com minhas visitas a Louise, nem com nosso caso de amor mal resolvido. A única explicação que encontro para um enlace tão bizarro é o fato de Louise estar tão deprimida longe de mim que casou com o primeiro idiota que encontrou. Salvo que o homem não me pareceu nem um pouco idiota, e é certo que tem uma vida dupla, seja lá ela qual for. Meu instinto de jornalista não se engana. Já cheguei a pensar que o tipo estaria envolvido em alguma falcatrua financeira clandestina, mas, como oportunamente observou meu amigo Ben, os suíços são especialistas em finanças e na gestão do dinheiro. Portanto, para que haveriam de se meter em falcatruas? Concordei com ele.

E, uma vez que ele não se mete em meus assuntos com Louise, não fico metendo o nariz nos seus negócios.

Assim, vez por outra, vou a Paris, matar a saudade que sinto de Louise, enfiar-me em seus lençóis de cetim.

Verdade seja dita, Louise sabe apreciar as coisas boas da vida, embora eu jamais tenha compreendido como ela conseguia arcar com os custos de seu gosto apurado. Nunca fiz perguntas. Ela poderia ficar ofendida, e eu ficaria sem o amor de Louise.

Por isso, já telefonei para ela e convidei-me a me hospedar na pensão, o modesto estabelecimento familiar que ela dirige desde a morte da avó.

Madame Julie era a única família de Louise, além da irmã, Claire, é evidente. Mas, dessa, ninguém ouve há anos. Sumiu no mundo com um siciliano e nunca mais deu notícia. Louise jura que a máfia deu cabo dela, mas como conheço bem dos fatos do mundo, não dou crédito a isso. O que a Máfia haveria de querer com Claire?

Não sei o que Ben pensa que vou descobrir na França acerca do tal túnel, mas admito que o mastodonte também atiçou minha curiosidade. Se conheço um pouco desse povo que habita o lado de lá dos Pirineus, os investidores estrangeiros que financiam as galerias subterrâneas estão perdidos. Não vejo como o cemitério de fósseis vá ser profanado. Os franceses irão defender seus esqueletos com barricadas, se preciso for.

(continua)

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