A CORUJA, O MASTODONTE, O FAZEDOR DE BURACOS E OUTROS MISTÉRIOS - de MAYA BLANNCO

(continuação)

Capítulo 2: Antônio Joaquim, Elevador da Bica, Lisboa, Portugal

Hoje, estive em casa de Mathias, e saiu-me ele com a conversa do túnel.

Tenho cá comigo que, desde que o homem voltou daquela viagem ao Ártico, ou sei lá que nome se dê às tais terras geladas por onde andou, perdeu-se de vez. Não imagino o que terá visto e ouvido por lá, ou o que lhe terão feito os estrangeiros, mas asseguro que o velho Mathias nunca mais foi o mesmo. Bastou-me cinco minutos de prosa com o amigo, tão logo dei com ele no aeroporto, para que tivesse certeza do que aqui falo. Mas, se dúvida restasse, teria desaparecido quando o vi surgir com a gaiola dourada e o tal bicho dentro.

Jesus!

Passou-me um arrepio de morte ao deparar com a tal criatura de penas, tão branca de doer as vistas (e veja que as tenho muito boas), e aqueles olhos redondos, amarelos, que ficavam a olhar para mim para qualquer lado que me movesse, posto que o bicho, depois soube, gira toda a cabeça sem precisar mexer o corpo.

Coisa do Demônio! Só pode ser!

Mais apavorado, penso eu, só fiquei quando bateu-me à porta a polícia, atrás do miúdo da Maria.

O ocorrido deu-se no meu saudoso Algarve ( vivia eu então por lá), quando tomei o pequeno a meus serviços na padaria. Houve por informar-me depois, e isso já corria à larga pelo bairro na época, que o miúdo andava metido em um lucrativo negócio no ramo de entretenimento e turismo.

Confesso que não entendi muito bem como se desenrolou a coisa toda.

Ao que parece, assim que terminava o expediente em meu estabelecimento, partia para um segundo trabalho, de administrador e gerente de um clube noturno da moda, onde empregava umas raparigas de bons dotes, cujo serviço era proporcionar atendimento à vasta clientela. Ia indo tão bem, contou-me a Maria, que já pensava em abrir um novo clube.

Eu, por mim, não vejo em que isto pudesse interessar às autoridades, pois está visto que o miúdo era muito empreendedor. Além de ajudar-me na lida o dia inteiro, ainda encontrou disposição para abrir um comércio de seu e contratar a mão-de-obra das senhoritas que, segundo contaram, estavam apenas a ganhar o seu sustento.

É como disse a Maria.

Não pode um ver o vizinho a prosperar que já se põe a inventar casos a respeito do pobre, a meter intrigas a toda gente. Ouve lá: assim andam as coisas em Portugal. Os patifes estão a tomar conta de tudo, e um homem que queira fazer a vida e prosperar tem que se ocupar desses percalços.

O final do episódio foi que nem a Maria pôs mais os olhos no miúdo.

Disse-lhe eu, e estava convicto disso, que o rapazola haveria de ter-se enfadado com o acontecido e, por certo, partira do Algarve para abrir outro negócio. Quiçá em terras de fora.

É o melhor que terá feito.

Tivera eu a idade do miúdo, também ia-me para terras de fora (como já o fiz, de fato, em sendo moço)!

Falava eu, todavia, do pássaro branco do Mathias.

Admito que o sucedido no aeroporto tirou-me o sono naquele dia. Verdade seja dita, com o tempo habituei-me ao bicho (Frederico, é como o chama Mathias). É bem manso, por certo, e sempre que vou ter com meu amigo levo-lhe algo, umas frutas, umas sementes, que seja. Jamais saio de lá sem fazer-lhe um afago na cabeça felpuda. Apeguei-me tanto a ele, que me dói vê-lo na gaiola (não que fique o tempo inteiro nela, ao contrário). Mas é pro bem dele. Se o deixassem solto, algum outro animal, ou até um transviado, podia fazer-lhe mal.

Mathias revelou-me que encontrara a ave nas terras Árticas, assim, quase por acaso. Explicou-me que o coitado caíra-lhe em cima vindo do céu.

São deveras esquisitas as coisas que caem em cima de Mathias. Lá no Algarve todos sabiam. Num dia de chuva, corria ele para casa e, de repente, jogaram-lhe em cima, ninguém apurou de onde, um embrulho grande, que foi estatelar-se no chão, a centímetros da cabeça do homem. O estrondo foi ouvido a várias quadras dali. Ao juntar-se a multidão para ver o que era, espantou-se. Uma viola, partida em pedaços! Quem haveria de imaginar?

Continuando, acerca da coruja, Mathias engajou-se numa expedição com uns cientistas ingleses (e não me perguntem onde os conheceu, porque nem mesmo a mim o revelou, talvez o tenha dito ao Frederico, quem sabe) e, no dia do acontecimento, saiu com eles numa exploração, quando, de súbito, sentiu que algo lhe tombava no colo. Assustou-se, é claro, e pulou pra trás. Ao retornar, na companhia dos demais, viu o animal estendido no gelo, com uma asa retorcida. Um dos cientistas logo identificou o animal: uma coruja-das-neves, uma espécie de grandes caçadores. Era muito incomum tombar um deles assim em cima de um, vindo do céu. Mathias hesitou um pouco, contou-me ele, não sabia se recolhia o bicho ou não, mas deixou-se cair de amores pelo pássaro, tão pronto abriu os olhos para ele.

Compreendi o sentimento do amigo, pois também eu aprecio muito o Frederico. Serão aqueles olhos amarelos feiticeiros, que sei eu?

Mas estava eu outro dia em casa do amigo, a relembrar fatos do nosso Algarve, e eis que veio ele com a ideia maluca de ir-se à Europa com Frederico para juntar-se ao maior empreendimento destes tempos: cavar um buraco gigantesco no mar, não sei com que finalidade, a cruzar todo o continente (leva-me tempo compreender o raciocínio de Mathias, apesar de considerar-me, sem falsa modéstia, homem de letras). Com a experiência que tinha como fazedor de buracos, esclareceu-me, pois estava considerado o maior construtor de poços de todo o Algarve, tendo, inclusive, preparado o poço do pároco e o de um político, não poderia ele furtar-se a comparecer com sua contribuição.

Será que somente eu vejo o que se passa?

Mathias botou-se louco de todo. Parti da residência dele com a cabeça fervendo de preocupações e maus pressentimentos. Ninguém desconfia o trabalho que me dá esse meu amigo. Não fora eu a cuidar de tudo, não sei onde estariam ele e o infeliz Frederico.

(continua)

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