A CORUJA, O MASTODONTE, O FAZEDOR DE BURACOS E OUTROS MISTÉRIOS - de MAYA BLANNCO

(continuação)

Capítulo 1: Frederico, Bairro Alto, Lisboa, Portugal

Pertenço à família dos rapinantes, ou assim me consideram: sou uma coruja- das-neves.

Nasci nas regiões geladas da taiga, mas cedo parti para terras de fora, na ilustre companhia de um jovem cavalheiro português, descendente de africanos, que me batizou com o imponente e curioso nome de Frederico.

Contam que as corujas-das-neves não suportam a vida em cativeiro, que são aves solitárias, tímidas e silenciosas, mas orgulhosas e independentes. Não sei o que é um cativeiro e não conheço outros como eu, portanto, nada posso falar quanto a isso.

Do humano sob cujos cuidados fiquei, afirmo que me dispensa o respeito e as deferências devidas à minha espécie. Mathias (é como se chama) é meu amigo, o único que tenho, devo ressaltar. Bem, ...não posso deixar de citar o dono da confeitaria, Antônio Joaquim, africano legítimo este, foragido de Moçambique (ouvi dizer). Se não é exatamente meu amigo, certo é que tem por mim grande apreço. Tanto que, vez por outra, brinda-me com um mimo qualquer, sempre muito gentil e atencioso. Jamais se esquece de afagar-me a cabeça (não é de fato coisa que eu permita a qualquer um: a cabeça de uma coruja é sagrada).

Vivo muito bem - sou praticamente feliz.

O que volta e meia me traz alguma nostalgia é aquela sensação do vento frio roçando minhas asas, o sol baixo do crepúsculo em meus olhos, o céu enchendo-se de cristais de luz. É bem verdade que tudo isso não passa de uma vaga recordação, pois quando deixei minha terra era muito novo decerto.

Não fosse a lembrança do sopro do vento em minhas asas, seria completamente feliz.

Mas não me queixo. Tenho meu amigo a meu lado o tempo inteiro, temos longas conversas, partilhamos confidências, a nosso modo. Dividimos a paixão por esse estranho equipamento humano chamado televisão. Ajeito-me em seu robusto ombro e, juntos, assistimos aos noticiários. É a coisa mais surpreendente deste lado do mundo, confesso, as tais notícias. Ouve-se de tudo um pouco. Claro está que pouco compreendo do que é dito, apesar de minha longa convivência com os humanos. Logo percebi que o mundo dessas criaturas é muito bizarro e encontra-se muito além do entendimento de uma coruja.

Outro dia mesmo escutei uma história que me pôs aturdido.

Um consórcio de cientistas e empreiteiros europeus e japoneses (não me perguntem o que é um cientista ou empreiteiro, tampouco imagino o que seja um japonês) está terminando a construção de uma fabulosa galeria que circunda todo o velho continente, passa por dentro das montanhas e debaixo do mar. O ponto de partida, segundo apurei, é um profundo e comprido túnel nos Alpes Austríacos.

No dia em que ouvi do fato, estavam por concluir um dos últimos trechos, o que avança pelo mar. Considerei a coisa toda uma insensatez completa. Vejam, com tanta terra neste mundo, para que fazer um buraco no mar?

Contudo, para minha surpresa, meu amigo ficou pra lá de entusiasmado. Não se falou de outro assunto em casa depois disso. Mathias não parava de contar de sua habilidade de cavador de buracos: o maior fazedor de buracos de todo o Algarve, repetia sem trégua. Era verdade que há muito se aposentara, porém um projeto daquela envergadura haveria de requerer a sua contribuição. Afinal, onde iriam encontrar alguém como ele? Precisava falar da nova ao compadre Antônio, que este era homem de letras e lhe daria o conselho adequado.

E foi aí que tudo começou. Mathias e eu partimos para terras europeias. Esta foi outra informação que não alcancei compreender, pois a mim sempre pareceu que já estávamos na Europa. Nunca me havia ocorrido, até então, que a pátria lusitana houvesse mudado de lugar.

Que sei eu? Sou apenas uma coruja.

(continua)

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